Capítulo 001: Lúcio

 


1.1.

Era o terceiro dia de suas tão aguardadas férias, mas ao invés de se sentir feliz, Lúcio caminhava cabisbaixo pelas sujas e abandonadas ruas do centro da cidade.

Como as altas temperaturas não permitem um descanso completo e muito menos oito horas de sono, ele tirou os dois primeiros dias para dormir e tentar recuperar sua energia. Colocou sua assistente virtual flutuante e tagarela no modo hibernação e nomeou o Sistema de Resfriamento Doméstico da Regenesis como seu melhor amigo. 

Por ser um sistema ainda novo, não é recomendado que ele seja usado em sua potência máxima por períodos prolongados, mas Lúcio já não estava se importando com tantas coisas como há dois anos atrás. E também, seu pequeno apartamento de cerca de 50 metros quadrados não exigia muito do desempenho. Era pequeno, mas adaptado e moderno.

Mas essa maratona de colchão acabou fazendo mais mal do que bem. Lúcio se levantou estranhamente melancólico depois de acordar e ficar cerca de quinze minutos sentado na beirada da cama pensando em absolutamente nada. Ficou apenas parado, contemplando o vazio diante de seus olhos através da janela, cujas cortinas ele havia esquecido de fechar.

Seu quarto fica no quinto andar de um prédio localizado no centro do Distrito 5. A janela tem cerca de 1.20 metros de altura, o que permite que ele enxergue todo o movimento de carros e pessoas abaixo. E é por isso que ele fecha as cortinas.

Claro, o brilho do Sol não o deixaria dormir mesmo filtrado pelas janelas reforçadas, mas o principal motivo era a hiperatividade de seu cérebro que insistia em lembrá-lo do caos e do vazio em que o mundo havia mergulhado. A noite agora era o dia, então se ele quisesse ir ao boliche após o expediente, como costumava fazer há alguns anos, precisaria fazer isso durante o dia.

Mas o Sol decretou de forma implacável que quem ousasse ir as ruas durante seu brilho sofreria as consequências. Por isso, todos estavam confinados em suas próprias casas e, ao ver as pessoas pela janela, Lúcio percebia que toda aquela rotina de vagar automaticamente até o trabalho para depois ficar em casa sozinho não fazia nenhum sentido. E esse é um pensamento perigoso.

Então ele levantou rapidamente, pulou dentro da mesma roupa que usou para ir ao trabalho dois dias antes, e ligou sua pequena Caixa Multimídia com a música bem alta, mas não o suficiente para acordar seus vizinhos. Assim, enquanto as guitarras distorcidas levavam os pensamentos intrusivos para longe de sua mente, ele lavou o rosto, escovou os dentes e comeu uma maçã aos poucos, enquanto se movia em uma dança inventada e tocava solos com sua guitarra imaginária.

1.2.

Quando a fruta chegou ao fim ele desligou sua Caixa, apanhou as chaves e saiu rapidamente pelas escadas, atravessando o saguão sem nem mesmo dar o seu costumeiro e inútil bom dia ao porteiro digital.

Ao sair à rua ele se deteve um instante diante de um grande relógio digital prateado, do tamanho de um outdoor, que ficava na calçada da frente. Tanto o aparelho quanto o poste que o sustenta tinham um brilho absurdo e chamativo, que mostrava o deprimente contraste entre um equipamento novo e as ruas e paredes desgastadas da cidade. A urgência de novas tecnologias fez com que as autoridades desprezassem a necessidade de manutenção do que já existia, fazendo a cidade se tornar uma sombria mistura de tecnologia cromada e estruturas encardidas.

Lúcio observou a hora: eram 19:45. Detalhista, ele decidiu comparar com as horas de seu próprio relógio. Ergueu sua mão esquerda até a altura do peito e observou seu pulso nu. Logo em seguida, colocou os dedos indicador e médio em seu lábio inferior e perguntou em voz moderada:

- Que horas são?

Imediatamente, o que pareceu ser um líquido prateado surgiu sobre sua pele, deslizando ao redor do pulso e envolvendo-o, tomando a forma de um relógio analógico. Era a sua nanotecnologia particular entrando em ação a partir do comando de voz, transmitido pelos nano receptores nas pontas de seus dedos. Uma tecnologia tão minúscula que fica alojada nos poros de seus usuários.

Confirmando que as horas estavam sincronizadas, Lúcio respirou fundo, passou a mão entre seus cabelos e segurou a nuca: todo o efeito musical se desfez diante da visão das ruas, e o desanimo voltou. Então falou pra si mesmo:

- Vou dar um alô para o senhor Chiaki. Só a conversa dele pra me animar.

Com cautela, atravessou a rua e começou a caminhar sem pressa, observando um pequeno mercado de produtos asiáticos que ficava há duas quadras de distância...


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