1.1
Ao entrar no mercado, Lúcio encontrou seu amigo Chiaki cheio de energia e animado como sempre. Os poucos cabelos brancos, cuidadosamente arrumados para trás e a postura levemente curvada eram os únicos indícios de seus mais de setenta anos. A agilidade com que ele organizava as prateleiras e erguia caixas cheias de mercadorias era impressionante.
- Está pesado aí? – brincou Lúcio.
- Hum? Oh, olá garoto! Que bom te ver, já faz alguns meses hein?
- Como estão as coisas senhor Chiaki?
- Tranquilas até demais. O que faz com essa roupa, você não estava de férias?
- Ah, estou sim. É que saí com pressa e nem escolhi o que vestir.
Ao ouvir essas palavras, o velho comerciante abaixou um pouco a cabeça para olhar por cima dos seus pequenos óculos de lentes redondas. Seu olhar atingiu em cheio o fundo dos olhos do amigo. Mais do que um cliente, Lúcio era como um filho, e o idoso sabia o que significava as saídas rápidas de casa.
- Sei... acho bom que seja só isso mesmo. Mas e então, o que vai fazer com todos esses trinta dias sem trabalho? É muito tempo hein – respondeu com uma animada risada.
Sorrindo, Lúcio respondeu:
- Pra falar a verdade eu nem sei. Eu fico tanto tempo encerrado naquela ilha que esqueço como são as coisas aqui fora. Tudo que vejo desta cidade é pela janela no trajeto até a empresa.
- Não tem muita coisa pra ver mesmo - disse o amigo - é tudo igual nessa natureza cinza. Prédios, máquinas, e agora os prédios estão se tornando máquinas também.
Chiaki fez uma pequena pausa e deixou escapar um suspiro cansado antes de continuar:
- E quem vai querer ir no meio da noite a um campo, um parque ou em qualquer canto que tenha um pouco de verde se não dá pra ver nada? Só nos resta comer e assistir. No meu caso, assistir minhas novelas – concluiu, recuperando seu bom humor.
Lúcio deu uma boa risada e seu amigo aproveitou:
- Isso mesmo, aí está! É desse Lúcio que eu senti falta. Você sempre me fez ter esperança na raça humana garoto. E por falar em esperança, pode me adiantar qual o tema do pronunciamento?
Intrigado e franzindo as sobrancelhas, Lúcio perguntou:
- Qual pronunciamento?
- Não está sabendo? Ontem a Regenesis anunciou que será algo importante. Tem relação com a promessa de consertar essa situação. Mas eu já estou vivo a tempo suficiente para não acreditar mais nessas coisas.
1.2
- Estranho – disse Lúcio – havia alguns planos, mas todos estavam programados para daqui três meses.
- Eu não vou criar expectativas - respondeu Chiaki - o diretor vai falar as 23:00 horas.
Ouvindo isso, Lúcio arregalou os olhos. O diretor só falou em público uma vez, e foi para apresentar a Regenesis ao mundo. O que estava por vir com certeza iria precisar de muitas explicações.
- Senhor Chiaki, será que eu posso ficar...
Mas antes que Lúcio pudesse terminar a pergunta, o ruído da desgastada porta automática se abrindo desviou a atenção dos dois. Por ela passou um jovem andando lentamente, vestindo roupa social em um estilo tradicional, com terno e sapatos pretos, um colete sobre a camisa branca e gravata verde. Ele sorriu e abriu os braços no momento em que viu Lúcio.
- Ah eu sabia – disse o jovem – sabia que ia te encontrar aqui tio.
Surpreso, Lúcio perguntou:
- Henrique? O que faz aqui?
- Poxa, isso é jeito de receber o seu sobrinho preferido?
- Você é meu único sobrinho Henrique. E se me lembro bem, deveria estar na ilha cobrindo minhas férias.
- Então... é justamente sobre isso que vim falar. Preciso que volte comigo.
Imediatamente Chiaki interviu:
- Garoto, o seu tio precisa de tempo. Ele nunca vai admitir, mas precisa parar e colar os pedaços porque ainda não teve tempo para si próprio. Deveria ser óbvio, mas como você parece mais burro que a maioria dos jovens da sua idade, eu preciso dizer que a morte da sua mãe foi a pouco tempo. Seu pai arrancou você de casa muito cedo, mas Lúcio e ela só tinham um ao outro, e ele sentiu muito mais do que você.
Constrangido, Henrique abaixou a cabeça, colocou a mão em seu próprio ombro e apertou com força. Em seguida respondeu ao indignado senhor:
- Senhor Chi... não sou eu que quero isso. É uma emergência e meu tio faz parte do setor administrativo, por isso...
- Samanta não estragaria as férias dele – cortou Chiaki.
- Minha mãe era do conselho. Ela mesma viria aqui para leva-lo.
- Tem a ver com o pronunciamento? – perguntou Lúcio.
- Sim, exatamente. E principalmente, tem a ver com começar a fazer nossa sociedade voltar ao normal.
Percebendo a expressão e o tom de voz sérios de Henrique, Lúcio pensou um pouco e decidiu acompanhar seu sobrinho. Uma transmissão de emergência e um comportamento tão inesperado do diretor eram sinais de algo realmente importante.
Ele sorriu para o senhor Chiaki e explicou:
- Fica tranquilo meu amigo. Pelo jeito, finalmente tenho algo significativo para fazer. O senhor viu bem como eu cheguei aqui, não consigo disfarçar nada. Pode ser que seja exatamente isso que eu estou precisando.
Contrariado, Chiaki respondeu:
- Garoto... nesta vida, quem decide o que é importante somos nós. Você não precisa ser super herói ou algo assim, isso não é obrigação de ninguém. Recebemos livre arbítrio para criar as opções, e não para escolher entre as que nos oferecem.
Ainda com um sorriso no rosto, Lúcio concluiu:
- Alguma coisa me diz que vai valer a pena. Bom, pelo menos eu consegui dormir dois dias inteiros. Até depois, Chi.
E dando de ombros, Lúcio andou em direção a porta.
- Desculpe senhor Chiaki – sussurrou Henrique, que ouviu uma educada resposta do idoso:
- Vai se lascar pirralho.

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