Não havia registros de uma máxima solar equivalente a essa mínima até o ano de 2050. Nesse ano, as alterações de temperatura superaram os 1.3 graus da mínima e alcançaram incríveis 2.1 graus de calor acima da média em todos os países do mundo.
Isso aconteceu devido a desentendimentos políticos que fizeram com que grandes países, como Estados Unidos e China, se retirassem do Acordo de Paris, que tinha por objetivo reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Com a saída desses países e a intensificação das emissões de gás, o acordo foi dissolvido no ano de 2039.
Durante a década que se seguiu, o aumento da temperatura começou a derreter as geleiras da Antártida, do ártico e da Sibéria, causando o aumento do nível dos oceanos. Isso levou a graves e frequentes inundações nas cidades litorâneas.
Entre os anos de 2047 e 2048 as inundações já tinham ceifado muitas vidas ao redor do mundo. Aqueles que tinham condições de mudar de estado decidiram fugir, criando um verdadeiro êxodo dentro dos países.
Nesse mesmo período, o calor extremo também já havia tirado a vida de muitos. A simples atividade de se deslocar para o trabalho e para a escola estava se tornando impossível de ser realizada sem que as pessoas sentissem mal estar. Isso fez com que os governos tomassem uma decisão radical em janeiro de 2047: inverter os horários da sociedade.
As pessoas passaram a trabalhar e estudar durante a noite, único período com temperatura saudável, e a dormir e ficar em casa durante o dia para se proteger do calor. Essa foi a melhor alternativa encontrada para lidar com a nova realidade, pois se acreditava que essa máxima solar não iria durar mais do que dois anos, e esse prazo se tornou a data oficial das autoridades para o fim dessa inversão.
Mas o tempo passou, e chegamos ao terceiro ano com as temperaturas ainda mais elevadas. Todos os estudos científicos traziam respostas inconclusivas, não havia mais teorias de quando esse tempo escaldante iria acabar. Muitos já nem acreditavam que realmente iria acabar.
Como a decisão de inverter os horários foi tomada em caráter emergencial, tudo mudou em um período de dois dias, tendo a população recebido a declaração em uma sexta-feira e retornado as suas atividades em novo horário já na segunda-feira.
As pessoas estavam muito estressadas com a mudança brusca, mas diante da afirmação dos governos de que a mudança duraria dois anos, a mente criou um padrão de tolerância. Era como se o cérebro dissesse “segure firme, daqui dois anos tudo isso acaba.” Mas o período considerado aceitável passou, e muitas pessoas começaram a ser tomadas pelo medo, desenvolvendo quadros graves de ansiedade e depressão.
Durante a noite, após a jornada de trabalho, as pessoas não tinham disposição para visitar seus amigos e parentes pois, por culpa do calor extremo, os períodos de sono durante o dia não deixavam as pessoas completamente descansadas, e quando chegavam do trabalho elas só queriam tentar dormir.
Como fazer visitas durante o dia se tornou algo impraticável, as pessoas passaram a viver em total isolamento. As redes sociais já não eram suficientes para suprir a necessidade de contato humano, e a situação se tornou insustentável. Algo precisava ser feito, e como os governos não se pronunciavam, as pessoas decidiram agir.
Grupos hackers articulando revoluções começaram a surgir, realizando ataques de Ransomware nos sistemas governamentais de todos os países ao redor do mundo.
Os hackers sequestravam dados importantes, criptografando as informações para que apenas eles conseguissem abrir os documentos e usá-los. Em troca da liberação dos documentos, os sequestradores exigiam que providencias fossem tomadas para que as pessoas pudessem viver de forma saudável, tanto fisicamente quanto mentalmente.
Fora do mundo digital, as pessoas começaram a entrar em greve contra o governo. Além de deixarem de pagar impostos, hackers expuseram dados pessoais de todos membros dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário), e assim, sabendo quem era quem, os empregados e fornecedores desses políticos deixaram de prestar seus serviços, fazendo com que, entre outras coisas, o único alimento disponível para eles fosse o que estava em seus estoques.
Aqueles que não estavam preparados entraram em desespero, pois começaram a descobrir o que significa sentir fome.
Nessa situação, muitos políticos começaram a se declarar a favor do povo em suas redes sociais, criando movimentos digitais que exigiam soluções de seus superiores. A maioria deles eram membros do judiciário, o que fez com que esse sistema entrasse em colapso e a pressão sobre o legislativo aumentasse.
Percebendo que não havia como reverter essa situação, o poder executivo relutou mas precisou pedir ajuda para as forças armadas. Não para resolver a situação com força bruta, pois o nível de caos estava patamares acima de uma solução tão simples. Mas sim porque a única solução real existia dentro de seus círculos internos, em projetos e operações conhecidos apenas pela alta cúpula dos governos.
1.3
Não se pode domar a natureza. Não se pode fugir do planeta apesar de sonhadores terem se dedicado, em vão, a encontrar novos planetas e realizar uma colonização. A única saída para o ser humano era resistir, sobreviver a uma nova era que a cada dia dava mais sinais de que seria permanente. Foi durante o segundo semestre do ano de 2050 que as autoridades precisaram deixar de lado o orgulho e a arrogância para aceitar que havia chegado a hora de aplicar, sem restrições, todos os frutos do desenvolvimento tecnológico humano.
Todas as tecnologias humanas, desde uma simples máquina de lavar programável até o mais avançado dos smartphones, surgiram como resultados secundários da busca por melhorias no setor militar. Foram “efeitos colaterais” desse desenvolvimento, e ficavam disponíveis ao público décadas depois de serem criadas. Os primeiros smartphones, por exemplo, foram criados no ano de 1984, mas eram usados com propósitos altamente sigilosos.
O governo e as forças armadas nunca tiveram uma boa relação, por isso, para conseguir os recursos necessários para realizar seus objetivos, os militares criaram as empresas que hoje são conhecidas como Big Techs para arrecadar fundos.
Sempre que uma tecnologia militar é considerada ultrapassada, os cientistas fazem adaptações e elas se tornam aparelhos domésticos, e a maior parte do lucro de suas vendas é direcionada para o desenvolvimento de novas tecnologias. As Big Techs sempre foram “representantes comerciais” das forças armadas.
Tudo que é apenas um sonho distante para os profissionais de computação, é realidade no círculo interno do poder. Por isso, o poder executivo buscou o auxílio militar com dois objetivos. O primeiro deles era o de encontrar uma forma de adaptar prédios e casas para resistir ao calor que só aumentava; o segundo, era encontrar uma forma de reaproximar as pessoas para manter a sanidade e o equilíbrio da sociedade.
O primeiro foi facilmente resolvido. O governo iniciou o processo de instalação de nanotecnologia nas residências populares e prédios comerciais. Essa nanotecnologia se replicava para cobrir toda a estrutura de forma tão ágil que deixava a aparência de ser líquida. Depois disso, ativava nanopainéis que absorvem o calor e o converte em radiação infravermelha para depois irradiá-la para a atmosfera.
Obviamente, o custo de desenvolvimento e logística para isso era imenso, e havia ainda outro fator que poderia ser prejudicial: cada país tinha sua política econômica específica, e essas divergências poderiam interferir fortemente no comércio de importação e exportação de alimentos e tecnologia.
1.4
Mas a humanidade estava vivendo um momento crítico, fronteiras e burocracia eram coisas muito fúteis para impedir as ações necessárias. Então para resolver esse empecilho de vez, foi realizado o primeiro Concílio Militar Mundial da história.
Durante o concílio, os representantes militares de cada país chegaram à conclusão de que era necessário unificar as forças armadas de todas as nações, para que a aplicação da tecnologia se harmonizasse com a economia e política.
Eles entenderam também que não eram mais aceitáveis uma corrida armamentista e a necessidade de domínio e imposição de ideias por meio de uma guerra armada. Era hora de evoluir, pois o poder pertence a quem tem o maior conhecimento e habilidade em estratégias.
Então, em decisão unânime, foi criada uma Big Tech que unificou todas as outras, canalizando as maiores inteligências em tecnologia para o mesmo local, com o objetivo de desenvolver e restaurar o mundo sem as limitações impostas por barreiras políticas. Essa Big Tech recebeu o nome de Regenesis.
E para garantir que não haveria nenhum tipo de influência “patriota”, as forças militares forçaram os governos a aceitar a Regenesis como uma cidade-estado, totalmente independente, mas dentro de sua própria região. Então, em alguns meses ela foi estabelecida em uma pequena ilha deserta, localizada no pacífico sul, onde todos os funcionários passaram a residir.
Como finalmente estavam vendo providências sendo tomadas, os cidadãos se acalmaram, e em um pronunciamento mundial a Regenesis informou que após o fim do aprimoramento das casas e prédios, o problema de não haver mais contato entre as pessoas seria resolvido.
Assim, depois de dois anos, com todas as casas já adaptadas e o desenvolvimento de novos eletrodomésticos e móveis, também adaptados as novas condições climáticas, no dia 22 de setembro de 2053 a Regenesis avisou que haveria um novo pronunciamento no dia seguinte. Esse pronunciamento seria o cumprimento da promessa de uma vida normal para as pessoas.
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