Ao colocar os pés fora da loja do senhor
Chiaki, Lúcio se deparou com uma nave transportadora de tamanho média
estacionada no meio da rua. Ela tinha o tamanho de um carro popular com duas
pequenas asas laterais, cada uma com duas turbinas. A altura era cerca de um
metro maior que a de um ônibus de dois andares, mas a parte debaixo era
composta apenas pelos motores e o amplo espaço para armazenar cargas.
Ao lado da porta de entrada estava a
logomarca da Regenesis, que era formada por três círculos azuis, um
dentro do outro. O primeiro e maior círculo era azul escuro com contornos em
azul claro; o segundo era azul escuro, com um traço na parte debaixo que o
conectava ao azul escuro do primeiro círculo; o terceiro círculo, que era o
círculo central, era azul claro com um traço na parte de cima que o conectava
com o azul claro do primeiro círculo.
Mesmo trabalhando na empresa desde seu início, esse símbolo ainda era um mistério para Lúcio. Até mesmo quando estava muito atarefado a ilustração chamava sua atenção e em alguns momentos até fazia sua imaginação voar longe. Mas desta vez o que mais chamou sua atenção foi o fato de Henrique usar uma nave de transporte para busca-lo, afinal de contas, ambos eram funcionários de nível relativamente alto na empresa. Não que Lúcio fizesse questão do conforto dos carros oficiais, mas aquilo era muito incomum.
Os dois entraram na nave e se sentaram um de frente para o outro. Lúcio queria cumprimentar o piloto, mas ele nem mesmo olhava para os lados. Depois de um breve solavanco, começou o voo em direção a ilha.
- Como ela era, tio? – perguntou
Henrique, tirando Lúcio de seus pensamentos.
- Sua mãe? Sensível, prestativa, amável,
protetora... ela cuidou de mim na adolescência. Éramos somente nós dois.
- Caramba, o senhor está descrevendo uma
pessoa totalmente oposta a que eu conheço.
Lúcio deu um sorriso triste, movendo
apenas um lado da boca...
- Infelizmente no trabalho ela era outra
pessoa. A posição dela exigia firmeza e determinação, e suas responsabilidades
eram levadas muito a sério.
- Por que eles se separaram? – perguntou
Henrique, com os olhos brilhantes e a sede de uma criança que acabou de
encontrar a chave de um baú cheio de tesouros. Essa expressão fez com que Lúcio
fizesse uma pausa e pensasse bem na resposta...
- O que seu pai disse quando você perguntou a ele?
- Disse que fez o que era melhor pra
mim. Só isso. Quando eu tentava voltar ao assunto ele desconversava.
- E o que ela te disse?
- Ela disse a mesma coisa. Disse que eu
era muito novo para correr os riscos envolvidos em ser conhecido como filho dela.
Eu tentei falar disso de novo depois de uns dias. Perguntei por que não
poderíamos ser uma família agora, e ela disse que os riscos ainda não acabaram.
Que as responsabilidades dela eram para sempre.
Essas palavras surpreenderam Lúcio.
Samanta sempre falava de suas responsabilidades ao irmão, mas nunca mencionou
nada sobre riscos. E mesmo assim, a irmã amorosa que ele conhecia jamais
cortaria um laço importante se não fosse por um motivo muito sério. Mas o
trabalho? Justo em uma empresa que tinha como política renovar o mundo para o
bem das pessoas? Muitas coisas passaram pela cabeça de Lúcio em poucos
segundos. Ela já havia explicado o motivo de deixar o marido e entregar o filho
para ele, mas a explicação que ela deu ao próprio filho era algo totalmente
diferente da que deu a ele...
- Olha Henrique... você já tem 20 anos.
Deve saber que existem assuntos que ficam apenas entre um casal. Tanto seu pai
como sua mãe eram pessoas com grandes responsabilidades relacionadas a
diretoria da empresa, e isso significa que eles conviviam com informações
confidenciais de alto nível. Samanta nunca me falou sobre nenhum tipo de risco,
então você provavelmente sabe muito mais do que eu sobre o assunto.
Henrique sentiu como se a chave de seu
baú de tesouro tivesse se transformado em areia e escorrido entre seus dedos.
- Já faz muito tempo que eu tenho 20
anos, tio. Todo mundo só exige maturidade de mim desde os 12, fui treinado para
ser o melhor no que faço e para não me deixar ser influenciado por nenhum tipo
de sentimento. Que tipo de pessoa quer que um garoto de 12 anos não tenha
sentimentos? Eu analiso todo o meu passado, toda a minha formação, e só uma
pergunta vem a minha mente. E é por causa dessa pergunta que eu gostaria de
saber se o senhor sabe de algo sobre os motivos de minha mãe.
- E que pergunta é essa? – respondeu
Lúcio.
- Será que eu vou precisar prejudicar
alguém da minha família? Será que eu vou precisar fazer algum tipo de
sacrifício que não pode ser prejudicado pelos meus sentimentos pessoais?
- Sua mãe não está mais aqui Henrique.
Você não tem que se preocupar com um dilema desse tipo.
- Mas o senhor está.
Lúcio não conseguiu esconder o susto que
levou ao ouvir essa frase. Por isso Henrique continuou:
- Eu vim interromper suas férias porque
o senhor foi escolhido a dedo para um projeto muito grande. Claro, todos nós
sabemos das suas capacidades, mas essa tarefa poderia ser feita com maestria
por pelo menos três outros membros. E sabemos que um deles é até um dos
“queridinhos” do Diretor. Então existe um bom motivo pro senhor ter sido
escolhido.
- E qual é esse motivo?
- Eu não sei.
- Mas sabe qual é a minha tarefa.
- Sim, e é isso que me deixa preocupado.
A sua tarefa é essencial para o desenvolvimento da nossa nova sociedade, mas
como eu disse antes é algo muito simples. Trabalhoso, mas simples.
Lúcio abriu um sorriso:
- Essencial para o desenvolvimento da
nossa nova sociedade? Essa frase soou bem exagerada. Coisa de filme dos anos 90
mesmo.
- Exagerada ou não, essa é a situação.
Apesar de a diretoria não aprovar seu estilo independente, o senhor é o melhor
investigador que temos.
Lúcio arregalou os olhos e perguntou, empolgado:
- Investigador? Eu vou voltar para o campo?
Surpreso, Henrique respondeu:
- Sinceramente, eu pensei que isso fosse
te deixar chateado.
- Ah eu estou cansado de ficar atrás da
mesa, preciso ocupar minha mente o tempo todo. Só assim para expulsar
pensamentos que incomodam. E o que exatamente eu vou investigar?
- O Conselho me deu ordens de não dizer
antes de chegarmos. Mas posso dizer que vou ter que supervisionar e que, para
todos os efeitos, o senhor continua de férias. Apenas o conselho e a diretoria
sabem dessas atividades.
Lúcio ficou preocupado com a última
revelação.
- Ninguém mais sabe disso?
- Percebe, tio – sussurrou Henrique, se aproximando do tio para que não houvesse risco de o piloto ouvir – se as coisas não saírem como a diretoria quer e forem exigidas “medidas radicais”, a versão oficial vai ser a de que o senhor saiu de férias e não voltou mais. Todo mundo viu o senhor sair da ilha e todos no seu prédio viram o senhor por lá fora do horário de trabalho. O álibi perfeito.
- Mas agora todos vão me ver voltar a
ilha com você.
- Não vão. Vamos descer diretamente na
cobertura, por isso fui buscar o senhor em uma nave de transporte. Se alguém
perguntar, foi apenas uma entrega de rotina para os membros do Conselho. E a
minha supervisão será em campo, terei que acompanhar o senhor pessoalmente em
cada movimento.
- Tá certo – respondeu Lúcio, respirando
fundo – agora você me deixou preocupado. Por causa da atitude da sua mãe,
ninguém além do seu pai e do próprio Diretor deveria saber do nosso parentesco.
Mas se te colocaram como meu supervisor, mesmo você tendo outras coisas pra
fazer, é porque por algum motivo sabem que eu confio em você para dar os
resultados da minha tarefa sem omitir nada. E se eu fizer algo de errado você
vai relatar, já que aprendeu a agir sem interferência das suas emoções.
- Exatamente. Eu acredito que alguém ou
todos do Conselho sabem que somos da mesma família.
Lúcio olhou para o chão durante alguns
segundos e depois respondeu:
- Isso tudo tem lógica, mas é muito
improvável. Nós não somos caras importantes Henrique, simplesmente fazemos
nosso trabalho. A vida não é um filme.
- Minha mãe abriu mão da maternidade para manter a minha segurança. Ela me disse isso. Já é um grande indício de que algo delicado está acontecendo nessa empresa.
- Essa empresa existe há pouco mais de
dois anos Henrique, e você tem vinte! Eu amo a minha irmã, mas se ela foi na
verdade uma mãe irresponsável que inventou uma desculpa criativa para fugir de
ser mãe, eu vou ter que aprender a viver com isso. Nós vamos. Não dá pra jogar
a verdade embaixo de uma fantasia só pra viver as nossas ilusões.
- Essa empresa é a fusão de muitas
outras, e o senhor sabe disso. Cada membro do Conselho representa uma das Big
Techs unidas, mas e o Diretor? Quem é ele? Porque não revela seu nome
publicamente?
- Os hackers acabaram com a vida dos
políticos, imagina o que iam fazer com o responsável pelo núcleo da tecnologia
no planeta? Ele está certo em se ocultar.
Henrique coçou a cabeça e se recostou na
poltrona da nave.
- Vamos fazer assim: a gente retoma a
conversa depois que o senhor receber sua tarefa e assistir ao pronunciamento.
Lúcio concordou, balançando a cabeça em sinal positivo, mas continuou em silêncio se perguntando como era possível que tudo que havia acabado de ouvir era loucura, mas ao mesmo tempo fazia sentido.
Pouco tempo depois o piloto anunciou que
já estavam no espaço aéreo da ilha e que em cinco minutos iriam pousar no
terraço.


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